Estava eu, meus amigos que aqui encontro, a divagar idéias e pensares dentro de um pobre coletivo. Colocava-me em sua área de embarque ao lado esquerdo da catraca que se fazia por maestrina dentro dele. Ela dominava todo o espaço termitente entre a frente e os fundos do tal. A divisora. Mas não é da catraca que venho vos falardes, mas da pessoa que alojada estava a uns dois metros dela: eu, neste caso.
...
Se olhava para fora da janela via-me dentro do ônibus, se deslocasse minha visão para lado contrário encontraria a certeza que ali eu estava; os bancos eram de todo vazio, como uma fileira da dupla élice de um DNA esperando ser agrupada a outra parte para se fazer de importante. Mas essas nunca vão se unir...
Que ausência de tudo senti naquele momento, tais quais eram tão grandes que se faziam de uma presença maior que sua própria ausência levando-me a sentí-la duas vezes ao mesmo tempo e com intensidade e força dobradas também. Que vontade que tive de arremessar palavras contra o vidro para ver se ele me responderia, mas ofender-me-ia com as mesmas proferidas por mim mesmo, mas tudo bem, pois como vento que sopra soprou para longe as vontades e trouxe novamente a ausência de uma ausência.
Sinto-me como se nada se movesse de meu ser; como se houvesse uma grande lacuna entre mim e o mundo, entre o mundo e eu; como se a ausência se ausentasse dela mesma e a fizesse tão presente, como nunca, em forma de algum outro tipo de sentimento que de nada sentia realmente... E assim vim sofrendo por não ter algo para sofrer; e assim vim pensando naquilo que não pensava; e assim vim ouvindo a voz do vazio silêncio que gritava de dentro para fora de minha pessoa...
Há algo tão impossível de se dizer que acabamos por dizê-lo e não percebemos que o proferimos.
Haverá tempo em que não existirá tempo e o homem poderá se conhecer melhor, pois nada passará...
Então tirem-me a sanidade antes que isto ocorra, pois se o tempo é um remédio, assassinados serão os farmacêuticos.